
Passarim.
(por Augusto Fiorin)
I.
se chegasses agora, me verias sorrindo, comovido com uma fruta que apodrece na fruteira, haveria um cadinho de azeite sobre a mesa e uma mosca passeando pelo ar. tu dirias: “é só um homem cismando sozinho”. e a terra continuaria a girar. teria a vida às vezes jeito de serpente? teria a vida às vezes corpo de mulher? eu seria só um homem e tu em teu caminho, e teu mundinho continuaria a gravitar. conto que leve ao teu destino, dois olhinhos pequeninos, como os de um menino, como se um bombom alpino, como os de um passarim.
II.
se decidisses ficar eu diria pra puxar uma cadeira bem fofinha e ficar por aí, de resto seriam os humores das coisas que ao seu modo nos moveria. mas tu que te achas, que sabes, que diz; tu dirias que... dirias que... dirias que... da lâmpada elétrica, das naves no espaço, mas palavras nunca dizem nada não. e eu seria só um homem. e tu ainda em teu caminho. e teu mundinho continuaria a gravitar. conto que leve ao teu destino, dois olhinhos pequeninos como os de um menino, como se um bombom alpino, como os de um passarim.
Escrito por Augusto Firorin às 14h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

A CASA DE TOLERÂNCIA INFINITA
(por Arthur Miller)
Decidi me mudar para o [hotel] Chelsea em 1960, pela privacidade que me foi prometida. Parecia ser um lugar fantasticamente afastado do burburinho central, quase uma favela, onde seria pouco provável que alguém fosse me procurar. Era pouco depois de Marilyn [Monroe] e eu nos separarmos, e parte da imprensa ainda perseguia meus passos, de vez em quando buscando novas revelações de maneira um tanto quanto desanimada. Uma amiga com a qual, mais tarde, eu iria me casar [Inge Morith] tinha feito fotos para um livro de Mary McCarthy sobre Veneza, e Mary recomendara o Chelsea como sendo um hotel barato, mas decente. Minha amiga, que normalmente vivia em Paris, tinha se hospedado lá durante breves períodos de trabalho na América, e eu achei o lugar surrado e, sem exagero algum, informal. "Ninguém vai incomodar você lá", ela me garantiu.
O proprietário, sr. Bard, me levou até um apartamento recém-redecorado no sexto andar, com vista para o estacionamento situado atrás do hotel (que, desde então, deu lugar a um prédio de apartamentos). O estacionamento é importante. Eu não sabia exatamente o que pensar de sr. Bard. Judeu húngaro de olhos azuis, baixo e com um rosto redondo e feliz, iluminado e repleto de energia, ele fez com a mão um gesto em direção ao quarto, dizendo: "Tudo é perfeito. Os móveis são todos novos em folha, os colchões são novos, as cortinas... Olhe no banheiro".
Enquanto andávamos em direção ao banheiro, observei um caminho gasto que percorria o centro do tapete e o que parecia ser pó de carvão debaixo de meus sapatos. "O tapete", comecei a dizer, mas ele me interrompeu. "Um tapete novo vai chegar amanhã", falou, com o dedo indicador levantado, e percebia-se que ele não tinha pensado em trocar o tapete até aquele exato momento.
Ele abriu as duas torneiras da pia e apontou com orgulho para a água que jorrava forte. "Torneiras novas em folha, no chuveiro também. Mas tome cuidado no chuveiro, a torneira fria é quente, e a quente é fria. Sr. Katz", ele falou. Voltamos para a sala. "O que tem o sr. Katz?", indaguei.
"Ele cuida dos encanamentos. Às vezes ele..." Mais uma vez Bard se interrompeu no meio e disse: "Então, o que o senhor me diz?". Antes que eu pudesse responder, prosseguiu: "Garanto que ninguém saberá que o senhor está vivendo aqui. Uma empregada vem todos os dias. Às vezes, quando estou deprimido, vou pescar no reservatório Croton; talvez o senhor queira juntar-se a mim". Era quase possível saber do que o sr. Bard estava falando, mas não por completo. Ele tinha o dom de superar as probabilidades, um fluência emocional que levava seus pensamentos a voar de um tema a outro como mergulhos de andorinha, uma visão progressista e entusiasmada da vida. Em suma, anarquia. "A mobília é toda nova."
"O senhor me disse isso", falei. Na realidade, era uma mobília barata, vinda do sul da fronteira -da Guatemala, talvez, ou da periferia de Queens-, e eu toquei uma escrivaninha com algum receio, mas, felizmente, o verniz já estava seco. Dentro de uma semana os colunistas de fofocas, como eu mais ou menos previra, já estavam divulgando meu novo endereço, e amigos meus na Europa observaram a mesma notícia importante em alguns jornais europeus e britânicos. "É uma pena", disse o sr. Bard quando falei com ele sobre o assunto. "Fizemos o melhor que pudemos para não mencionar nada. Todo o mundo fez."
"Todo o mundo quem?"
"Todo o mundo a quem dissemos que não deveria mencionar."
"Incluindo os jornais?"
"Incluindo os jornais, o quê?"
"Aos quais você disse para não mencionarem."
Ele achou graça e deu risada. Eu também. Eu já estava entrando no clima. Tinha ouvido um boato de que o sr. Bard tinha ganho o hotel num jogo de cartas com apostas altas que acontecera no hotel New Yorker, que também tinha trocado de mãos algumas vezes em consequência de um jogo(...).
Escrito por Augusto Firorin às 10h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
(...)Apesar de quase me escaldar no chuveiro algumas vezes, comecei a gostar do hotel ou pelo menos de alguns de seus hóspedes ou residentes, como alguns deles gostavam de se chamar. Você podia ficar chapado nos elevadores apenas com os resíduos de fumaça de maconha. "Que fumaça?", o sr. Bard indagava, indignado. De vez em quando o poeta Allen Ginsberg tentava vender sua nova revista, "Fuck You", no saguão do hotel, Andy Warhol filmava cenas em um dos apartamentos, e vez por outra uma moça de olhos malucos aparecia no saguão, distribuindo uma resma de maldições mimeografadas jogadas sobre pessoas do sexo masculino e ameaçando atirar num homem num dia qualquer. Tive uma conversa séria -ou que eu achei que fosse séria- com o sr. Bard e seu filho Stanley, que estava pouco a pouco assumindo a direção da casa, mas eles desprezaram a idéia de que ela pudesse realmente fazer alguma coisa arriscada. Como fui saber aos poucos, eles simplesmente não se interessavam por más notícias. É claro que a moça atirou em Warhol, mirando diretamente em suas bolas, dois dias mais tarde, quando ele entrava no saguão vindo da rua 23. Mas, como tudo o mais que acontecia por lá, aquilo perturbou a tranquilidade do dia no Chelsea apenas momentaneamente. De qualquer maneira, era com certeza muito mais "gemütlich" [acolhedor] do que viver num hotel de verdade. No início dos anos 1960, caminhoneiros ainda se hospedavam em quartos do segundo andar que não tinham banheiros e estacionavam seus imensos veículos na frente do hotel durante a noite. O Automat ainda ficava na esquina da rua 7. Lá eu tomei café muitas vezes com Arthur C. Clarke [escritor de ficção científica], que, à sua maneira seca, lembrando o jeito de um pastor da igreja Unitária, tentava me explicar por que populações novas inteiras dentro em breve estariam vivendo no espaço. Fingindo estar interessado nesse absurdo, eu me perguntava por que alguém iria querer viver no espaço. "Por que Colombo quis atravessar o oceano?" Eu supunha que ele tivesse razão, mas não realmente. Em pouco tempo, europeus começaram a aparecer no Chelsea, na esperança de encontrar sabe-se lá que aventuras no hotel de celebridades e artistas sobre o qual tinham lido, e alguns fugiam tão rapidamente quanto tinham chegado, em pânico bem-educado. Um deles, um empresário alemão, me disse: "É como um certo tipo de hotel que existe em Paris", acrescentando: "Na verdade, a semelhança é até um pouco excessiva". Para muitos, porém, o Chelsea satisfazia suas expectativas: era emocionante saber que Virgil Thomson estava escrevendo suas resenhas musicais antipáticas no último andar e que as telas penduradas no saguão eram de Larry Rivers, sem dúvida a título de aluguel e, ainda, que a garota de faces encovadas no elevador era Viva, que o homem de olhos cansados que a acompanhava era Warhol e que o aroma que você estava sentindo era de maconha. Em certa manhã foi feita a entrega fatídica e espantosa de um novo rolo de tapete. Ele foi deixado temporariamente no saguão, onde os residentes da casa paravam para olhar, espantados, já que era o primeiro objeto novo que muitos deles já tinham visto entrando no Chelsea. Sua chegada sugeria uma possível nova atitude reformista por parte da direção do hotel, que, para alguns de seus residentes, tinha implicações preocupantes. Para começo de conversa, poderia significar que a casa seria arrumada e consertada. Isso com certeza resultaria em aumento dos aluguéis, colocando na rua alguns dos inquilinos. Mas o novo rolo de tapete foi especialmente inspirador para Mendel Rubin, o "engenheiro" do prédio -um antigo soldado raso da Marinha, grande, bonzinho e judeu, que começou a ousar nutrir a esperança de que alguns dos equipamentos guardados no subsolo e aos quais ele dispensava cuidados constantes também pudessem ser substituídos. De tempos em tempos, entre um e outro encontro com seus queimadores de óleo, Mendel dava as caras para ajudar a dependurar quadros no saguão ou bater papos artísticos, de passagem, com os hóspedes. Ao tomar conhecimento das somas astronômicas que Rivers recebia por seu trabalho, Mendel não viu razão para não começar a rabiscar seus próprios desenhos sobre placas de linóleo avulsas que encontrara no porão e que começou a cobrir com jatos de tinta laranja, verde e preta que sobrara no fundo de latas deixadas lá embaixo. Ele espalhava as placas pelo saguão, e uma visitante da Islândia, creio eu, ou talvez tenha sido da Nova Zelândia, comprou várias delas e pagou a ele em dinheiro. Mendel nunca mais seria o mesmo. Ele começou a passar seu tempo todo com suas placas e até conseguiu fazer uma exposição numa galeria no centro da cidade. Eu nunca soube como nem por que ele desapareceu do hotel, mas, antes de fazê-lo, ele me confidenciou que nutria um ódio profundo e duradouro pelo detetive da casa, que, tinha certeza, não passava de um enganador -o que, como será explicado dentro em pouco, revelou ter uma ligação profunda com o novo rolo de tapete(...).
Escrito por Augusto Firorin às 10h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
(...)Hippie e antiquado
O Chelsea, nos anos 60, parecia unir dois ambientes: o caos assustador e otimista que antecedeu o futuro hippie e, ao mesmo tempo, a sensação de uma família grande, antiquada, protetora. Esse, pelo menos, era o mito que acalentávamos em nossa cabeça, mas, como todos os mitos, ele não resistia totalmente quando inspecionado de perto. A idéia de família tinha limites. A não ser que você estivesse drogado ou passasse seus dias colocando tinta sobre uma tela, palavras em papel, cinzéis em pedra ou cantando árias de óperas ao piano, era muito difícil conseguir que Stanley prestasse atenção em você. Fosse o que mais fosse, o Chelsea era uma casa de tolerância infinita. Essa era a genialidade dos Bard, pensei eu: ter conquistado um caos operacional que, ao mesmo tempo, podia ser um lar para pessoas que não eram malucas. Escrevi a maior parte de "After the Fall" [Depois da Queda] ali, e nossa filha tomou seus primeiros banhos na pia da cozinha do hotel. Virgil Thomson oferecia martinis letais a seus convidados ocasionais, e Arthur C. Clarke teimava em traçar o mapa do próximo milênio em seu quarto ao lado. Tragicamente, também havia pessoas que tinham chegado a seu limite, que vagavam pelos corredores ou elevadores de pijama ao meio-dia, uma das quais, segundo seus pares, tinha sido o melhor estilista de moda feminina que a América já vira nascer, Charles James.
Que ele era alguém profundamente problemático era evidente; seu desespero impotente estava escrito em seus olhos. Era um homem de rosto largo, na casa dos 60 anos e ainda bastante forte, eu pensava, e inteligente, mas de vez em quando esquecido a ponto de sair à rua em sua roupa de dormir. Kennedy acabara de ser assassinado quando topamos um com o outro num corredor, e ele segurou minha mão e disse: "Será que isto é o começo do fim?" e me olhou nos olhos, fixamente, como se as balas tivessem passado raspando por ele.
Na realidade, o lugar me lembrava [o Estado de] Nevada no início dos anos 60 -e ainda lembra. Havia um tipo semelhante de deslocamento, de inadaptação, em tantas das pessoas que ou tinham abandonado ou nunca tinham chegado a adentrar os caminhos batidos normais pelos quais flui a maior parte do tráfego humano. O pobre Brendan Behan esteve hospedado lá por dois ou três meses, no momento de sua vida em que parecia divertir-se casualmente com a proximidade da morte, coisa na qual não diferia da tristeza depressiva de Charles Jackson antes de pôr fim a sua vida (em 1963, 24 anos depois de publicar "The Lost Weekend") ou do bravo mergulho de Dylan Thomas em direção a uma catarata particular de álcool que acabaria por agarrá-lo e atirá-lo de encontro às pedras lá embaixo. Mas onde há artistas sempre haverá suicidas. Sempre me pareceu estranho o fato de muitos escritores acharem Nova York tão glamourosa. Para mim, nascido na esquina da rua 112 com a Terceira avenida, a cidade era, com certeza, o lugar mais interessante do mundo, mas não um campo de diamantes reluzindo sob o luar, sendo repleta de meras pessoas, e não de possibilidades infinitas. Parecia bizarro que tivesse sido ali no Chelsea, dez anos antes, que eu me vira me compadecendo de outro alcoólatra celta autodestrutivo, Dylan Thomas. Tudo o que Brendan podia esperar era trabalhar por um pouco mais de tempo, mas ele já tinha praticamente parado, encharcado. Com Dylan a sequência tinha sido diferente; ele ainda se sentia perseguido, pensava eu, pelo sentimento de culpa por seu próprio sucesso, quando seu amado pai poeta não tinha conseguido nenhum reconhecimento próprio. Quando Dylan, ainda jovem, redondinho e de faces rosadas, se postou diante do público reverente no auditório de Irving Place, uma mão agarrada ao pódio para se equilibrar, sua voz cadenciada, um verdadeiro instrumento musical, nos conduzindo com segurança extraterrena até seus campos, seus sonhos e as ruas de seus povoados, ouvíamos algo muito antigo e misteriosamente grave. Sua voz ecoava, saída de criptas de pedra e coisas enterradas, e ele me parecia ser um homem escolhido para conduzir um espírito perdido de volta ao mundo, muito mais do que um simples escritor à procura de uma palavra ou um tema. Ouvindo-o, eu soube o que era um bardo, e o fato de não estar morrendo de doença alguma enquanto cantava por moedas e para o prazer de desconhecidos era estranho e terrível. As paredes do Chelsea poderiam nos dizer muito sobre o auto-repúdio de pessoas talentosas.
http://www.hotelchelsea.com/
http://www.elportenio.com/elportenio/rey.htm
Escrito por Augusto Firorin às 10h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Eu ando vestido com as armas de Jorge, para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não peguem, tendo olhos não me enxerguem e, nem mesmo pensamentos tenham que possam me fazer mal.
http://www.clipinfo.com.br/clubimp/sjorge.htm
http://vida.de.santos.vilabol.uol.com.br/jorge.html
Escrito por Augusto Firorin às 14h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

“Em maio a dor é mais forte, embora as cores pareçam mais vivas /
Te via sangrar enquanto dançava sobre um tapete de cacos de vidro”.
(trecho de MAiO – por Augusto Fiorin)
Escrito por Augusto Firorin às 22h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Os três-diabos.
(por floriano martins)
A vida não deve saber de tudo. Deus não deve saber de tudo. O leitor não deve saber de tudo. A explicação empobrece o texto. Então como separar o cúmplice da vítima? Haverá uma polícia do acaso? Jamais deixar vazar uma identificação. Apagar todas as pistas, antes mesmo que sejam detectadas. Pôr sempre em dúvida todo método, embora ciente de que aqui as cartas se embaralham e nenhum de nós sabe mais do que estamos falando. Não importa. Já ninguém percebe com clareza o que está se passando no mundo. Tampouco há tempo para dedicar-se a uma única incompreensão. É preciso desentender de maneira indiscriminada, um sistema múltiplo de ausência de sentidos. Não se trata mais da droga que velozmente passa de um ponto a outro, do verbo que mingua nas mãos de letristas de canção e poetas, do invisível empilhamento de cadáveres patrocinado pelas campanhas de álcool moderado no trânsito. A estatística finalmente descobriu sua verdadeira natureza: falsear a realidade. Observando o mapa da multidão, como separar profusão de cópia? Deveria haver um trato íntimo da emoção, algo que nos torna incomuns, indistintos entre si. Um perfume, o jeito de pousar a mão no rosto do amante, o esquecimento. Uma questão de estilo - dispara o primeiro diabo recostado na fumaça de seu charuto. Mas que seja inédito - bafeja o outro velejando os vapores de sua bebida. Haverá um terceiro? Que deus é tão estúpido para se parecer com seu mensageiro? Desde o princípio, vítima e cúmplice se distraem em balanços no parque. Quem repassa a droga da alegoria, a metáfora do inferno, a hemorragia figurada? Os poetas merecem o mundo que assimilaram. Quanto mais desfigurado o dilema mais afeito à platéia igualmente adulterada. E todos ficam tão felizes com a maneira aprazível com que tudo funciona como se fosse um carrossel. Não é lindo ver o mundo assim tão unido? - ironiza o diabo do estilo. E, tão iludidas, crianças tão boas, crêem que são lidas - remenda com olhar quase patético o diabo inédito. A quem pode agradar o pesar? Tudo o que sentimos é dor. Não entramos no mundo de outra maneira. Do saber, da aflição, da ignorância - tudo é dor. De surdez fulgurante, não ouve senão a si mesma. Jamais saberemos o que lhe dói. Mesmo cansada, a dor apenas dói. Como posso sentir a dor do outro se não identifico a minha? Quem sabe uma excursão? - sugere aquele que quer manter o estilo. Talvez um concurso de ex-votos - arrisca o outro. Já sabemos que vazou identificação, que nada é como o que se supõe. Haverá um terceiro diabo? Um livrinho de três folhas, uma constelação? Nossa obsessão pelo legível nos levou à cegueira total. O que vemos, antes de tudo, é o que percebemos. A vida nos deve tudo. Deus nos deve tudo. O leitor nos deve tudo. A explicação sempre empobreceu o texto.
Escrito por Augusto Firorin às 20h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Contos D'Escárnio
(trecho – por Hilda Hilst)
O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres, mas como adoram o dinheiro as cadelonas! Uma delas, trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí o texto é dela) e depois Lucrécio: "o homem que vê claro lança de si os negócios e procura antes de tudo compreender a natureza das coisas". A natureza da própria pomba ela compreendia muito bem. Queria umas três vezes por noite o meu pau rombudo lá dentro. E antes desse meu esforço queria também a minha pobre língua se adentrando frenética naquela caverna vermelhona e úmida. Empapava os lençóis. Era preciso enxugá-la com uma bela toalha felpuda antes de meter na dita cuja. Na hora do gozo ria.
isso não é normal Flora.
bobinho! Isso é vida, alegria, o amor é alegre, Crassinho.
Histérica e sabichona dava gritinhos e rápidos aulidos, e quando tudo acabava, sentava-se sóbria na beirada da cama:
as causas judiciais demoram tanto para serem solucionadas, meu Crasso, tem algum numerário aí para mim? assim que receber dos meus clientes te pago. O seu único cliente era eu e claro que eu pagava. Afinal não me fazia mal ouvir Lucrécio de vez em quando, se a atriz discursante era dona daquela pomba molhada e faminta. Claro que nem todas as soi-disant cultas são assim tão chatas. Tive as cultas refinadas e originais também. Mas que mão de obra, meu pai! Uma delas é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos. Mas principalmente pelo gosto exótico na comida e no sexo. Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões de ostras. Era preciso que eu telefonasse uma semana antes para os maîtres dos tais restaurantes. Tordo?! Nunca sabiam se era um pássaro ou um peixe. Eu imagino hoje que ela sempre acabava comendo um sabiá. Com aspargos. O pastelão de ostras era mais fácil. Mas os vinhos para acompanhar aquilo tudo! Josete entendia de vinhos como se tivesse nascido embaixo duma parreira de Avignon. Depois desse inferno todo, ainda tínhamos que dançar, porque é delicioso dançar com você amor, se você tivesse mais tempo...
tenho todo o tempo do mundo, querida (talvez tivesse, mas nem tanto!)
Escrito por Augusto Firorin às 19h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
(...)Tinha mania de uma música: You've changed, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus dedos várias vezes na sua suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. Sorrindo soltava um pífio arroto de tordos e ostras abafado entre os seus dois dedinhos, enquanto os meus (dedos naturalmente) beliscavam-lhe a cona. Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava escondendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças:
vamos embora, hen bem?
tá tão gostoso, amor
eu sei, Josete, mas olha só o meu pau
não seja grosso, Crasso
E aí eu tinha que começar tudo de novo, não sem primeiro ouvi-la pedir as sobremesas e os licores. Depois de Josete ter gozado umas dez vezes entre sabiás e musses e álcoois dos mais finos que me custavam um caralhão de dinheiro, levantava-se garbosa, Espártaco antes da derrocada final, naturalmente. Eu ia atrás meio cego mas ainda sedento. Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedantescos. No primeiro dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse: meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de loucura quando ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistóide, você sabia?
bobagens, Crassinho, o homem foi um gênio.
Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma pústula, uma privada de estação em Cururu Mirim. Senão, vejam:
"O eminente escabroso olho do cu cagando
[moscas,
retumbando com imperialismo
urinol último, estrumeira, charco de mijo sem
[cloaca
................. o preservativo cheio de baratas,
tatuagens em volta do ânus
e em círculo de damas jogadoras de golfe em
[roda dele."
Escrito por Augusto Firorin às 19h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
(...)Josete adorava. Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: "tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him". Eu achava um lixo, mas não queria me desentender com toda aquela boceta-chupeta que literalmente, quando ativada, abraçava e quase engolia o meu pau.
tudo bem, Josete, se você gosta... de gustibus et coloribus etc.
pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável
Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear idiotias, ainda mais em inglês. Estávamos no apartamento de Josete. Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se de bruços e ordenou lacônica:
pegue aquela grande lupa lá na minha mesinha.
Lupa?
Lupa, sim, Crassinho.
Então peguei.
faz um favor, benzinho, abra o meu cu.
como?
oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite
e o que eu faço com a lupa?
a lupa é pra você olhar ao redor dele.
ao redor do seu cu, Josete?
evidente, Crassinho.
Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito esmero e extrema competência estavam três damas com seus lindos vestidos de babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas.
não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu pra quê?
homenagem a Pound, Crassinho
mas isso deve ter doído um bocado!
the courageous violent slashing themselves with knifes ( que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se com facas. Continuação do Canto XV).
coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound)
Aí achei o cúmulo. "Jamais, meu amor, machucaria essas lindas damas". Josete começou a chorar.
ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andiamo in the great scabrous arse-hole (no grande escabroso olho do cu)
Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra! Nunca entendi por que Josete quando citava Pound colocava a entonação inglesa. Também nunca perguntei. Certamente o nojento era o Shakespeare dela.
http://www.angelfire.com/ri/casadosol/hhilst.html
Escrito por Augusto Firorin às 19h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|

|
|

|