Birigüi Blues


 

   

Exu Malandrinho.

(trecho-repeteco / por Augusto Fiorin)

 

 

     _Eu gosto de ir pro rancho você – disse o menino, o rosto metido no vão entre os bancos do carro.

     _Nada, a mãe que mandou.

     _A mãe falou pra eu te proteger.

     _Não acredito.

     _É sim.

     _E como é que você vai me proteger? Você é um bosta n’água.

     _Não sou não.

     _Lógico que é.

     _Eu gosto de você, pai.

     _Então quer dizer que só o fato de você gostar de mim já me protege?

     _Ã?

     Dei de ombros.

     _Eu gosto de você desde quando eu tinha quatro anos.

     _E antes?

     _Quando eu era nenê?

     _Eu gosto de você desde antes de você nascer – falei –, desde quando você tava na barriga da sua mãe.

     _Na barriga da mãe?

     _Isso.

     Ele riu. 



Escrito por Augusto Firorin às 20h30
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                               FLorais de Back

(por Augusto Fiorin)

 

 

 

ELA TOMOU BOLINHA PRA DEIXAR O FILHO NA SARJETA / A VIDA É TAMBÉM LIXO E NÃO SÓ FLORAIS DE BACK / POR ISSO AS FLORES QUE EU IA TE MANDAR, ESQUECI NUMA GAVETA / NÃO QUE TENHA TE ESQUECIDO, É SÓ VIR AQUI BUSCAR.

 

DEPOIS DO OITAVO COMPRIMIDO O ESCURO SE ACENDEU / DEPOIS DO OITAVO COMPRIMIDO NÃO ERA ELA, ERA DEUS / DEPOIS DO OITAVO COMPRIMIDO ERA ELA E ESTAVA SÓ / DEPOIS...

 

NÃO SEI SE AINDA É POSSÍVEL SER FELIZ.



Escrito por Augusto Firorin às 19h40
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http://www.soteoria.hpg.ig.com.br/cosmologia/buraconegro.htm

http://www.feiradeciencias.com.br/sala24/24_E15.asp

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12676.shtml



Escrito por Augusto Firorin às 20h55
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Romance sonámbulo.


Verde que te quiero verde. / Verde que te quero verde.
Verde viento. Verdes ramas. / Verde vento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar / O barco vai sobre o mar
y el caballo en la montaña. / e o cavalo na montanha.
Con la sombra en la cintura / Com a sombra pela cintura
ella sueña en su baranda / ela sonha na varanda,
verde carne, pelo verde, / verde carne, tranças verdes,
con ojos de fría plata. / com olhos de fria prata.
Verde que te quiero verde. / Verde que te quero verde.
Bajo la luna gitana, / Por sob a lua cigana,
las cosas la están mirando / as coisas estão mirando-a
y ella no puede mirarlas. / ela não pode mirá-las.

Verde que te quiero verde. / Verde que te quero verde.
Grandes estrellas de escarcha, / Grandes estrelas de escarcha
vienen con el pez de sombra / nascem com o peixe de sombra
que abre el camino del alba. / que rasga o caminho da alva.
La higuera frota su viento / A figueira raspa o vento
con la lija de sus ramas, / a lixá-lo com as ramas,
y el monte, gato garduño, / e o monte, gato selvagem,
eriza sus pitas agrias. / eriça as piteiras ásperas.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...? /
Mas quem virá? E por onde?...
Ella sigue en su baranda, / Ela fica na varanda,
verde carne, pelo verde, / verde carne, tranças verdes,
soñando en la mar amarga. / ela sonha na água amarga.

Compadre, quiero cambiar / Compadre, dou meu cavalo
mi caballo por su casa, / em troca de sua casa,
mi montura por su espejo, / o arreio por seu espelho,
mi cuchillo por su manta. / a faca por sua manta.
Compadre, vengo sangrando / Compadre, venho sangrando
desde los puertos de Cabra. / desde as passagens de Cabra.

Si yo pudiera, mocito, / Se pudesse, meu mocinho,
este trato se cerraba. / esse negócio eu fechava.
Pero yo ya no soy yo, / No entanto eu já não sou eu,
ni mi casa es ya mi casa. / nem a casa é minha casa.

Compadre, quiero morir / Compadre, quero morrer
decentemente en mi cama. /
com decência, em minha cama.
De acero, si puede ser, / De ferro, se for possível,
con las sábanas de holanda. / e com lençóis de cambraia.
¿ No veis la herida que tengo / Não vês que enorme ferida
desde el pecho a la garganta? / vai de meu peito à garganta?(...)



Escrito por Augusto Firorin às 20h28
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(...)Trescientas rosas morenas / Trezentas rosas morenas
lleva tu pechera blanca. / traz tua camisa branca.
Tu sangre rezuma y huele / Ressuma teu sangue e cheira
alrededor de tu faja. / em redor de tua faixa.
Pero yo ya no soy yo. / No entanto eu já não sou eu,
Ni mi casa es ya mi casa. / nem a casa é minha casa.

Dejadme subir al menos / Que eu possa subir ao menos
hasta las altas barandas, / até às altas varandas.
¡Dejadme subir!, dejadme / Que eu possa subir! que o possa
hasta las altas barandas. / até às verdes varandas.
Barandales de la luna / As balaustradas da lua
por donde retumba el agua. / por onde retumba a água.

Ya suben los dos compadres / Já sobem os dois compadres
hacia las altas barandas. / até às altas varandas.
Dejando un rastro de sangre. / Deixando um rastro de sangue.
Dejando un rastro de lágrimas. / Deixando um rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados / Tremiam pelos telhados
farolillos de hojalata. / pequenos faróis de lata.
Mil panderos de cristal, / Mil pandeiros de cristal
herían la madrugada. / feriam a madrugada.

Verde que te quiero verde, / Verde que te quero verde,
verde viento, verdes ramas. / verde vento, verdes ramas
Los dos compadres subieron. / Os dois compadres subiram.
El largo viento dejaba / O vasto vento deixava
en la boca un raro gusto / na boca um gosto esquisito
de hiel, de menta y de albahaca. / de menta, fel e alfavaca.

¡Compadre!
¿Dónde está, dime? / Que é dela, compadre, dize-me
¿Dónde está tu niña amarga? / que é de tua filha amarga?

¡Cuántas veces te esperó! / Quantas vezes te esperou!
¡Cuántas veces te esperara, / Quantas vezes te esperara,
cara fresca, negro pelo, / rosto fresco, negras tranças,
en esta verde baranda! / aqui na verde varanda!

Sobre el rostro del aljibe, / Sobre a face da cisterna
se mecía la gitana. / balançava-se a cigana.
Verde carne, pelo verde, / Verde carne, tranças verdes,
con ojos de fría plata. / com olhos de fria prata.
Un carámbano de luna / Ponta gelada de lua
la sostiene sobre el agua. / sustenta-a por cima da água.
La noche se puso íntima / A noite se fez tão íntima
como una pequeña plaza. / como uma pequena praça.
Guardias civiles borrachos  / Lá fora, à porta, golpeando,
en la puerta golpeaban. / guardas-civis na cachaça.

Verde que te quiero verde. / Verde que te quero verde.

Verde viento. Verdes ramas. / Verde vento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar. / O barco vai sobre o mar.
Y el caballo en la montaña. / E o cavalo na montanha.

 

                 lorcaass.gif (2046 bytes)

 

                                           - FEDERICO GRACIA LORCA -   



Escrito por Augusto Firorin às 20h28
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 William S. Burroughs, que faleceu no início de agosto de 97 em Lawrence, Kansas, aos 83 anos, foi o grande fora-da-lei da literatura contemporânea. Pela importância e radicalidade, sua obra pode ser colocada ao lado da de escritores como John Barth, Samuel Beckett, Henry Miller, Céline, Doctorow e Thomas Pynchon. Norman Mailer o considerava um gênio. John Updike, "um escritor incorruptível". Já seu companheiro de geração Beat, Jack Kerouac, afirmava que Burroughs era o maior escritor satírico desde Jonathan Swift. A opinião de Kerouac parece indicar o ponto de vista adequado para entendermos sua obra. O próprio escritor relativizava com humor sua fama literária: anos atrás, perguntado sobre como se sentia ao ter sido condecorado com a Comenda das Artes e Letras do governo francês, comentou: "E daí? Jerry Lewis também foi".

         Neto do inventor do mecanismo da máquina de calcular, Burroughs levou ao limite o dito de que não há literatura experimental sem vida experimental. Conheceu o submundo das drogas, escreveu livros "ilegíveis", foi exterminador de ratos, detetive particular, viveu no México, Marrocos, Paris, Londres. Foi guru dos hippies, punks e agora, dos surfistas internéticos.

         O estereótipo do drogado-beat-homossexual e sua biografia tumultuada, no entanto, obscureceram uma leitura mais precisa de Burroughs enquanto escritor. Não era exatamente como "junkie writer" ou anti-humanista que ele queria ser lembrado: "Desde o começo eu tenho me preocupado, enquanto escritor, com o vício em si (seja a drogas, sexo, dinheiro, ou poder) como um modelo de controle, e com a decadência máxima potencialidades biólogicas da humanidade, pervertida pela estupidez e malícia desumanas". Se, como escreveu Michel Serres, a chave da modernidade está na relação parasítica, a obra de Burroughs chega a ser didática. Em sua narrativa grotesca, escatológica, distópica, o parasita se torna uma metáfora para todas as relações de poder.

         "A linguagem é um vírus". Nesta frase-chave e em toda sua obra, Burroughs sintetiza nossa condição, de explosão virótica e paranóias extraterrestres, de internets, massificação pela propaganda, clonagens e de bombardeio diário de informações pela mídia. Se o vício aparece como metáfora "nua e crua" para os males da sociedade de consumo, é com a do vírus que Burroughs descortina nossa agoridade espetacular. O problema é que para Burroughs não há cura para este vírus: trata-se da própria consciência humana, programada para funcionar como um mecanismo virótico. Ao se reproduzir em cópias de si mesma, inoculando comandos contraditórios, o parasita age naquilo que é a diferença do ser humano dos outros animais: a linguagem.

         O papel do escritor, como um sintomatologista, passa a ser o de expor os seus modos de funcionamento. "Um médico não é criticado por descrever as manifestações e sintomas de uma doença, mesmo que elas sejam repugnantes. Acho que o escritor deve ter a mesma liberdade", escreveu. Sua obra, muito antes da voga da "desconstrução", já fazia uma análise demolidora dos dualismos básicos da nossa cultura, de nossa tendência em pensar em termos de oposições binárias como mente/corpo, homem/mulher, certo/errado, natureza/cultura, realidade/ficção, eu/outro. Burroughs foi um crítico ferrenho do senso-comum, que ele via como uma das drogas mais perigosas, um modo "viciado" e limitado de ver. "A lógica aristotélica é um dos grandes erros do pensamento ocidental. Existem certas fórmulas, palavras-chaves, que podem trancafiar uma civilização durante séculos". Trinta e dois anos após a publicação polêmica de "Naked Lunch" (Almoço Nu) talvez seja hora reler a descrição nua e crua que Burroughs faz: o que parece estranho pode nos surpreender. A ficção, para ele, tinha o péssimo hábito de virar realidade(...).



Escrito por Augusto Firorin às 18h45
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(...)NARRATIVA "ZAPPING"

         No início dos anos 60, principalmente na chamada trilogia "cut-up", muito antes da teoria contemporânea discutir o fenômeno da "intertextualidade", Burroughs incorporou o conceito de colagem cubista e procedimentos do Dadaísmo para a narrativa. Apontava, assim, para a característica intertextual não só da literatura mas também de nossa época. O uso de "cut-ups", mais intensamente praticados em livros como "O Ticket Que Explodiu", "Expresso Nova" e "A Máquina Macia", questionava radicalmente o conceito de autoria. O resultado, se usado com moderação, como aconselhava, era um método de escrita hipertextual, que poderia inclusive contar com a ativa colaboração do leitor. (Para os que quiserem experimentar, há na Internet um site com uma Máquina Cut-Up programada para editar ao acaso textos inseridos pelo usuário com fragmentos da obra de Burroughs).

         Com o cut-up, a idéia de um texto interativo e de uma escrita "eletrônica", que se faz de súbitos links, já estava lançada. Na época, o método de Burroughs era bastante "primitivo": munido de gravadores e uma tesoura, Burroughs cortava tiras de textos das fontes mais variadas — trechos da Bíblia, jornais, Shakespeare e os diálogos de um filme-B, por exemplo. Depois, justapunha-os com textos seus e reescrevia o resultado. O efeito, como demonstra em sua trilogia e em "A Terceira Mente", é uma espécie de "zapping" narrativo. A descontinuidade provocada pelo vírus tornava o texto uma zona de turbulência, ou simulava efeitos de simultaneidade, como se estivéssemos vendo vários canais ao mesmo tempo. Burroughs criava, assim, o Frankenstein da literatura contemporânea: A Máquina Cut-Up.

         Mesmo tendo abandonado progressivamente este método de escrita a partir dos anos 70, Burroughs acreditava que os efeitos textuais provocados pelo cut-up estavam muito mais próximos do funcionamento real de nossas percepções do que a narrativa linear, sequencial. Recebemos mais informações subliminares do que nossas consciências registram. Para indicar seu ponto de vista, dava um exemplo muito próximo de nós: a TV.

         Em tempos de tecnologias e hipertextualidades, Burroughs era otimista em relação ao futuro do livro: "Acho que as pessoas nunca vão abandonar totalmente a leitura. Nada substituirá a literatura: nem o vídeo, nem o cinema. Por outro lado, a fórmula novelística está ultrapassada, e se não houver coisas interessantes nessa área, as pessoas estarão cada vez mais lendo só livros e revistas ilustradas, histórias em quadrinhos. Há coisas que você não consegue numa tela ou num filme. Já com um livro as pessoas podem sentar-se em qualquer lugar e é como se um filme estivesse passando em suas cabeças".

 

ESTÚDIO REALIDADE

         De "Almoço Nu" ao mais recente "Minha Educação: Um Livro de Sonhos" (1995), Burroughs nunca abandonou seu projeto literário e político de questionar a estrutura da realidade. Sua obra seria melhor lida no contexto da "Nova Mitologia" que dizia estar criando para nossa época.

         Em seu universo mágico e perigoso, o escritor descrevia a presença de estruturas arcaicas em eterno conflito. A realidade humana, no grande circo burroughsiano, nada mais é que "um universo pré-filmado e pré-gravado". Na sua ficção, vive-se numa grande Interzone infestada de piratas homossexuais, políticos mafiosos, serial killers, burocratas viciados, seitas fanáticas, cyborgs e alienígenas. Nesta cidade-mundo, "nada é verdadeiro, tudo é permitido". A própria História é um velho filme que é rebobinado toda vez que chega ao fim, e que pode ser alterada apenas através de uma radical "Operação Reescrita". A única saída para o escritor é expor o funcionamento dos sistemas de controle e ao mesmo tempo tentar miná-los viroticamente(...).



Escrito por Augusto Firorin às 18h44
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        (...)Neste cenário pessimista, o corpo humano nada mais é que uma "máquina macia" programada para satisfazer as necessidades absolutas de seus controladores: a Nova Gangue, um grupo paramilitar intergalático que domina a humanidade através da manipulação da imagem e da palavra. Sua tarefa, na ficção anarquista de Burroughs, é agravar os conflitos humanos colocando num mesmo planeta formas de vida irreconciliáveis. Para o autor, uma nova mitologia, nos termos que propõe, só seria possível na era espacial, "onde teremos novamente heróis e vilões quanto às suas intenções para com este planeta".

         Pelos labirintos da grande "zona" textual de seus romances, circulam personagens que parecem saídos da realidade, como Dr. Benway, inescrupuloso médico cujo maior feito foi ter retirado o apêndice de um paciente com uma lata de sardinha enferrujada. Há também Mr. Bradley Mr. Martin, "um Deus que fracassou, um Deus do Conflito, o inventor da cruz dupla, dos dualismos". Existem os Mugwumps, répteis alienígenas que sugam humanos (chupa-cabras?) e garotos "heavy metal" (termo extraído de sua obra). E, claro, há o Estúdio Realidade, onde imagens e representações do mundo "ao vivo" estão a todo instante sendo editadas e manipuladas. A tarefa da Polícia Nova, liderada pelo Inspetor Lee, é expulsar os invasores e liberar o planeta. Profeticamente, em "Naked Lunch", de 1959, Burroughs apresentava um vírus letal e misterioso (também chamado de B-23 ou "vírus do amor"), e que teria surgido na África, atacando principalmente homossexuais.

         A obra de Burroughs — que engloba intervenções em áreas diversas — pode ser entendida como uma grande teia onde se entrecruzam disciplinas como filosofia, antropologia, psicanálise, política, pintura, cinema e cultura pop. Por isso, ela acabou contaminando personalidades de diversas áreas, como David Cronenberg, Robert Wilson, e artistas como Brian Eno, Lou Reed, Tom Waits, David Bowie, Patti Smith e Laurie Anderson.

         A produção literária de Burroughs também fez a cabeça de jovens escritores como Kathy Acker, escritores "cyberpunk" (William Gibson, Bruce Stirling e Clive Barker), repercutindo até nas obras de filósofos como Deleuze e Guatari. No Brasil, possíveis semelhanças com a escrita burroughsiana se encontram em "Panamérica", de José Agrippino e "Catatau", de Paulo Leminski. O escritor trafegou pelos mais variados gêneros, sempre com intenções paródicas: do diário de viagem às histórias policiais, do western a ficção-científica. Entre seus escritores preferidos estavam Rimbaud, Kafka, Conrad, Dostoievsky, Denton Welch, T.S. Eliot, e Beckett.

         Burroughs contextualizava sua obra à luz da tradição picaresca, cujos antecedentes mais antigos são o "Satyricom", de Petrônio, e "The Unfortunate Traveller", de Tomas Nashe: a narração de uma série de aventuras e de "acidentes de percurso", alguns horríveis, outros cômicos, vividos por um anti-herói. De fato, os livros mais importantes de Burroughs foram escritos neste estilo. Não há também como deixar de apontar pontos de contato entre seu universo narrativo com os de George Orwell, Franz Kafka e Aldous Huxley.

         Nos últimos anos, Burroughs estava escrevendo cada vez menos e aproveitando cada vez mais seus últimos momentos. Ou seja, pintando, cuidando dos gatos, recebendo amigos e praticando tiro. Chegou a fazer experiências interessantes como a ópera "The Black Rider" (O Cavaleiro Negro, em parceria com Robert Wilson e Tom Waits) e lançou álbuns de "spoken word" como o excelente "Dead City Radio" (Rádio Cidade Morta), que retoma a forma da novela radiofônica. Encarado como uma espécie de dinossauro da contracultura, passou a ser cada vez mais assediado em seu exílio no Kansas, como remanescente de uma época turbulenta. Não à toa, escolheu para morar um lugar que é conhecido como "Alameda Tornado" (título de outro livro seu), e onde depois seria filmado o filme "The Day After". Sobreviveu a Kurt Cobain, com quem fez parceria, e fez pontas em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Twister".

         O fato é que, aos 83 anos, depois de tudo o que aprontou, era chegada a hora do Agente Lee fazer suas malas. Como nas palavras de um personagem de "The Western Lands", um de seus últimos livros: "O velho escritor não podia mais escrever por ter atingido o limite do que poderia ser feito com as palavras". Burroughs se preparou durante toda sua vida para a última viagem às Terras do Oeste, o paraíso dos egípcios, e que só é atingido por uma estrada perigosa. Burroughs chegou lá.

         "Kim nunca havia duvidado da existência de deuses ou da possibilidade de vida após a morte. Ele considerava a imortalidade como o único objetivo que valia a pena. Ele sabia que ela não é algo que você atinge automaticamente por acreditar em algum dogma arbitrário como Cristianismo ou Islã. É algo que você tem que trabalhar e batalhar, como tudo mais nessa vida ou na outra".

("The Western Lands")

 

 

RODRIGO GARCIA LOPES
in Revista Cult, SP, n. 3, 1997, pp-20-22



Escrito por Augusto Firorin às 18h43
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Escrito por Augusto Firorin às 21h05
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Crença & Técnica na Ficção Moderna.
Jack Kerouac - REPETECO

1. Cadernos secretos cheios de rabiscos, e furiosas páginas datilografadas, para seu próprio prazer
2. Submisso a tudo, aberto, atento
3. Tente nunca se embriagar fora de casa
4. Ame sua vida
5. Qualquer coisa que você sentir encontrará sua própria forma
6. Seja um pirado santo-idiota da mente
7. Vá fundo o quanto quiser
8. Escreva o que desejar, ilimitadamente, do fundo de sua cabeça
9. As visões indizíveis do indivíduo
10. Não perca tempo com poesia, escreva exatamente o que é
11. Tiques visionários sacudindo o peito
12. Em extática concentração, sonhar com o objeto à sua frente
13. Elimine as inibições literárias, gramaticais e sintáticas
14. Como Proust, seja um velho maconheiro do tempo
15. Contar a história verdadeira do mundo em monólogo interior
16. A pedra preciosa do foco do interesse é o olho dentro do olho
17. Escreva lembrando, espantado, de si mesmo
18. Trabalhe a partir da medula da atenção, nadando no mar da linguagem
19. Aceite a perda definitiva
20. Acredite no contorno sagrado da vida
21. Lute para esboçar o fluxo que já existe intacto na mente
22. Não pense nas palavras, quando parar, mas procure ver melhor o quadro
23. Não perca de vista todo dia a data que sua manhã anuncia
24. Não tema nem se envergonhe da dignidade de sua experiência, linguagem & conhecimento
25. Escreva para que o mundo leia e veja os retratos exatos que você faz dele
26. Livro-filme é o filme em palavras, a forma visual americana
27. Em louvor à Pessoa na Solidão Desolada e desumana
28. Componha de forma selvagem, indisciplinada, pura, tudo vindo do fundo, quanto mais louco melhor
29. Você é um Gênio o tempo inteiro
30. Autor-Diretor de filmes Terrestres, Patrocinados & Santificados no Céu

                                                                                                                        



Escrito por Augusto Firorin às 20h58
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http://www.umbandanossa.hpg.ig.com.br/exu.htm

http://www.aguaforte.com/ileaxeogum/exu2.html

http://planeta.terra.com.br/arte/candomble/html/casas1.html



Escrito por Augusto Firorin às 18h40
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Feliz aniversário VAMPIRAH!!!



Escrito por Augusto Firorin às 18h39
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Las librerías de los Estados Unidos agotaban dieciséis mil ejemplares semanales de su primer libro en tiempos de hippies y psicodelia. El nombre era THE TEACHINGS OF DON JUAN: A YAQUI WAY OF KNOWLEDGE, que había sido la tesis de Carlos Castaneda para doctorarse en antropología por la Universidad de California. Era un libro tan extraño y fascinante que Federico Fellini anunció sus intenciones de filmar una película sobre él y tuvo que renunciar después de declarar haber recibido amenazas de muerte a consecuencia de ello. Castaneda se había convertido en una celebridad en una nación conmovida por la guerra con Vietnam, cuando los jóvenes se aventuraban a la experimentación con drogas y al credo de la rebelión pacifista. Leerlo era entonces sumergirse en el mundo alucinado de la brujería de los indios mexicanos, con quienes había descubierto la realidad de las sustancias psicotrópicas como el peyote, los hongos y la datura. La revista Time ordenó una cacería mundial de don Juan Matus, el indio yaqui que según Castaneda en su aprendizaje de shaman, para confirmar si de verdad existía o era un invento del autor. Ante lo inesperado de su fama, el antropólogo SUPERSTAR decidió borrar su historia personal, declararse brasileño o chicano o gitano o la reencarnación de un faraón egipcio, y esconderse tras seudónimos como Salvador Castaneda, Isidoro Baltasar y Joe Córdova. Las sospechas llegaron de inmediato. ¿Quién era en verdad Carlos Castaneda? ¿Un guía espiritual? ¿Un fabulador fascinante? ¿Un farsante desenfrenado? Un diccionario de personajes diría que fue César Arana, un hombre nacido una Navidad de 1925 en Cajamarca, estudiante de la Escuela de Bellas Artes de Lima, quien viajó a los Estados Unidos, cambió su nombre por el de Carlos Castaneda, vendió ocho millones de copias de su primer libro y fue investido como el padre espiritual del New Age. Pero seguir las huellas del auténtico Arana es ir resbalando dentro de una caja china de historias tan confusas que hasta lo que fue cierto parece mentira. ETIQUETA NEGRA ha descubierto cartas y fotografías inéditas, pero, sobre todo, un perfil menos brumoso de él a través de conversaciones con su familia y amigos. 

 

http://geocities.yahoo.com.br/serambarino/castanedarecap.htm

http://www.botanical-online.com/alcaloidespeyote.htm



Escrito por Augusto Firorin às 18h04
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Papai Noel Velho

Batuta.

(GAROTOS PODRES)

 

papai noel filho da puta, rejeita os miseráveis, eu quero matá-lo, aquele porco capitalista, presenteia os ricos e cospe nos pobres... papai noel filho da puta, rejeita os miseráveis, eu quero matá-lo, aquele porco capitalista, presenteia os ricos e cospe nos pobres, presenteia os ricos e cospe nos pobres... papai noel filho da puta, rejeita os miseráveis, eu quero matá-lo, aquele porco capitalista, presenteia os ricos e cospe nos pobres, presenteia os ricos e cospe nos pobres, presenteia os ricos e cospe nos pobres...

 

http://www.geocities.com/garotospodresbr/gpzero.html



Escrito por Augusto Firorin às 18h09
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Balada pra Sex Symbol.

(por augusto fiorin)

 

 

 

a noite nos envolve, nela eu me movo, você não encontra paz / paraíso resplandece, certamente, mas distante demais / solidão, eu sei, é essa dor que parece que não vai passar / vou amputar uma mão, embrulhar na minha blusa e mandar pra você / é que eu te sinto a ouvir os passos vindos da calçada / não é nada, pense em corredores vazios / se te dou, é a mão que afaga, não a que castigae, nem tente, é inútil fugir daqui / até no tibet já automóveis demais / veneza: sempre o mesmo inferno d’água em cada esquina / tv. é um monstro com mil olhos / teu demônio não sou eu / devagar o mundo te come pelos pés / você precisa de alguém / você já não sabe mais onde bate o seu coração / você já não sabe mais onde bate o seu coração...



Escrito por Augusto Firorin às 04h59
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PUBLICADOS NOS EUA, "UMA MENTE PRÓPRIA", SOBRE O GRADUAL DESPRESTÍGIO SOCIAL DO PÊNIS, E "A HISTÓRIA DE V", QUE GLORIFICA A VAGINA, SE PROPÕEM A RECRIAR O IMAGINÁRIO DESSES ÓRGÃOS AO LONGO DA HISTÓRIA, MAS DERRAPAM EM INTERPRETAÇÕES ENGAJADAS.


por Thomas Laqueur



Esses dois livros são de certa maneira imagens espelhadas um do outro. "A Mind of Its Own - A Cultural History of the Penis" [Uma Mente Própria -Uma História Cultural do Pênis, 368 págs., US$ 15, ed. Penguin], de David M. Friedman, é uma história cultural do pênis, desde o patriarca Abraão até a última cura para a disfunção erétil, com muitas histórias evolucionárias especulativas no caminho. "The Story of V - A Natural History of Female Sexuality" [A História de V - Uma História Natural da Sexualidade Feminina, 322 págs., US$ 24,95, Rutgers University Press], de Catherine Blackledge, tende mais para o natural do que para a história humana, e é sobre "visões da vagina" desde a Idade da Pedra até o orgasmo "campeão". Os dois livros pairam em torno de um conjunto de questões sérias: como o corpo constitui a cultura e é constituído por ela; como seus prazeres, desejos e diferenças sexuais definem as mais profundas relações entre nós e entre nosso mundo e o mundo dos deuses; como a natureza define ou não as interações entre homens e mulheres; como reagimos a esse caos de interpretação. Mas aqui terminam as semelhanças. As histórias que eles contam são opostas entre si. Uma é a história da abjeção: a história do preocupado, incompreendido, atacado e muito castigado pênis, cujos bons momentos ocasionais rapidamente azedam. A outra canta a vagina triunfante, que pode ter seus detratores no Ocidente, mas em outros lugares -e na natureza- é heróica, honrada e reverenciada(...).

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2609200404.htm

Escrito por Augusto Firorin às 04h38
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Arthur Gomes

“omelete bélico – poema explode com  três granadas estéticas

marlene morre na hora com estilhaços no peito

marília recebe a navalha no lado esquerdo dos seios

mariana percebe o impacto na sala do cursinho e tomba com  seus olhos vazados

todas as últimas quintas metralhadoras giratórias cospem fogo de letras na casa da palavra”

 

 

Artur Gomes nasceu em 1948, na Fazenda Santa Maria de Cacomanga, onde seu pai Arthur Ribeiro de Abreu foi administrador por toda a vida.

Em fevereiro de 1967, um acidente automobilístico quase lhe rouba a vida.

Entre maio de 1967 a junho de 1968 habitou o Quartel de Cavalaria e Guardas Dragões da Independência, no Rio de Janeiro e em Brasília, onde começou seu primeiro contato com o Teatro nas cidades periféricas,  Gama e Cruzeiro.

Começou a publicar na década de setenta.

Em seus 3 primeiros livros, mesmo sem ainda ter lido Sartre, podemos encontrar poemas de cunho existencialista que, em 1975 foram  pela primeira vez para o Teatro, com adaptação e direção do hoje Doutor em Literatura Deneval Filho, com o título de Judas O Resto da Cruz.

Em 1979, escreve e publica o poema Jesus Cristo Cortador de Cana, onde sua veia poética começa a enfocar as questões sócio políticas, o que vai ser uma constante nos livros que se seguiriam, como Boi Pintadinho, Suor & Cio, Couro Cru & Carne Viva, e 20 Poemas com Gsoto de JardiNÓpolis & Uma Canção Com Sabor de Campos.

Em 1983 cria o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira, que vai culminar em 1993, com o grande evento em homenagem ao centenário de Mário de Andrade, realizado pelo Sesc-SP, em parceria com o Grupo LivreEspaço de Poesia, que tinha como líder a poeta e escritora Dalila Teles Veras.

Em 1995 cria o projeto Retalhos Imortais do SerAfim - Oswald de Andarade nada Sabia de Mim, onde cria o  personagem Federico Baudelaire (seu alter-ego).

Durante 25 anos dirigiu Oficinas de Teatro, na então Escola Técnica Federal de Campos, hoje Cefet, mesmo quando ainda não existia ensino de Arte naquela instituição, montando uma dezena de espetáculos, com textos próprios, ou utilizando fragmentos de autores como, Ionesco, Pirandello, Ruy Guerra, Chico Buarque, Dias Gomes, Sartre, Vianinha etc.

Especialista em Teatro/Poesia, já realizou mais de mil recitais em espaços dos mais inusitados: galerias, salas de aula, campos de futebol, quadras esportivas, metrô, trens, ônibus, teatros, bares, restaurantes, esquinas de ruas e praças, e recentemente deu início a um circuito pelas Plataformas da Petrobras, na Bacia de Campos e Macaé.

No livro Sagarangens Fulinaímicas, faz um remix em prosa e verso dessa sua instigante trajetória.

http://geleia.geral.blog.uol.com.br/ - http://www.fulinaima.com.br/



Escrito por Augusto Firorin às 01h03
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Mais Nenhum Prosac

(por Augusto Fiorin)

 

 

I

Por ti não tomarei mais nenhum veneno

E sim farei de minha vida campo minado pros teus pés

Por ti não tomarei nem sequer mais um Prosac

Prefiro ter o corpo esquartejado por um trem

Quero ver tuas pestanas queimando na chama fria da fogueira das vaidades

Quero ver a água que bebe virar sal na tua boca

Quero te ver só, louca, sem felicidade...

Mas o que queria mesmo era não te querer mais



Escrito por Augusto Firorin às 23h54
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II

Por ti não tomarei mais nenhum gole sequer de cachaça

Pois teu amor é frio, é como aço, como um abridor de latas

Por ti não tomarei tento, não tomarei juízo, não tomarei vergonha

Nunca mais provarei de tua peçonha, pois de ti não quero mais nada

Quero sim ver tuas unhas de esmalte torrando na fogueira das vaidades

Quero ver o pão que come sangrar na tua boca

Quero te ver só, louca, sem felicidade...

Mas o que queria mesmo era não te querer mais

http://www.edadantigua.com/edadmedia/torturas.htm

http://canales.eldiariomontanes.es/patrimonio/museos/mus3.htm

http://www.dhnet.org.br/denunciar/tortura/textos/index.html



Escrito por Augusto Firorin às 23h48
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Breton.

(Trecho do Segundo Manifesto do Surrealismo, por André Breton, e um ligeiro antes e depois (imagine um treco desses acontecendeo no Orkut) extraído do mesmo livro: Manifestos do Surrealismo / Ed. Brasiliense – 1985.)

 

 

(...)E o diabo preserva, ainda uma vez, a idéia surrealista, como qualquer outra idéia que tenda a tomar forma concreta, a se submeter do melhor modo possível na ordem do fato, ao mesmo título que a idéia de amor tende a criar um ser, a idéia da Revolução tende a fazer chegar o dia desta Revolução, sem o que estas idéias perderiam todo o sentido – lembremos que a idéia de surrealismo tende simplesmente à recuperação total da nossa força psíquica por um meio que não é senão a descida vertiginosa em nós, a iluminação sistemática dos lugares escondidos e o obscurecimento progressivo dos outros lugares, o passeio perpétuo em plena zona interdita, e que sua atividade não corre nenhum risco sério de terminar, enquanto o homem puder distinguir um animal de uma chama ou de uma pedra –, o diabo preserva, digo, a idéia surrealista de começar a andar sem avatares(...).

 

 

 

ANTES / DEPOIS.

 

“Preocupado com a moral, isto é, com o sentido da vida, e não com a observância das leis humanas, André Breton por seu amor da vida exata e da aventura, restitui seu sentido próprio à palavra religião”.

 

“E a última vaidade deste fantasma será feder eternamente entre os fedores do paraíso prometido à próxima e segura conversação do escroque André Breton”.

(ROBERT DESNOS)



Escrito por Augusto Firorin às 12h39
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“Caro amigo, minha admiração pelo senhor não depende de uma perpétua elevação das virtudes e dos erros do senhor”. 

“O segundo manifesto do surrealismo não é uma revelação, mas é um triunfo. Não se faz nada melhor no gênero hipócrita, traidor, trapaceiro e para dizer tudo: tira e padre”.

(GERORGES RIBEMONT-DESSAIGNES)

 

“Meu caro Breton, pode ser que eu nunca mais volte para a França. Esta noite insultei tudo o que se pode insultar. Mataram-me. O sangue me corre dos olhos, das narinas, da boca. Não me abandone. Defenda-me”. – 21 de julho de 1924.

 

“Chego Paris Obrigado”. – 23 de julho de 1924.

 

“Vou gostar de te ver sangrando pelo nariz” – Dezembro de 1929.

(GEORGES LIMBOUR)

 

“Sei exatamente o que te devo, e sei também que são as noções que me ensinaste no curso de nossas conversações que me permitiram chegar a estas constatações. Seguimos caminhos bem paralelos. Gostaria que acreditasse que a minha amizade por ti não é questão de sorrir”.

 

“Era o íntegro Breton, o indomável revolucionário, o severo moralista. Ah, sim, um safardana. Esteta de galinheiro, este animal de sangue frio nunca trouxe em todas as coisas senão a mais negra confusão”.

(JACQUES BARON)

 

“Faço parte dos amigos de André Breton em função da confiança que ele me concede. Mas não é uma confiança. Ninguém a possui. É uma graça. Desejo-a pra vós. É a graça que eu vos desejo”.

 

“Quanto a suas idéias, não creio que ninguém as tenha tomado a sério, salvo alguns críticos complacentes que ele bajulava, alguns colegiais repetentes, algumas mulheres recém-paridas com ânsia de monstros”.

(ROGER VITRAC)

 

http://www.revista.agulha.nom.br/ag39willer.htm



Escrito por Augusto Firorin às 12h35
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Angorá.

(Por Augusto Fiorin)

 

 

 

     _Boa tarde – disse ele, agarrando-se mais ao pacote que trazia consigo.

     _Boa tarde!!! – responderam as velhotas em coro, em roda, em frente à casa da dona Matilde, vizinha da esquerda, moradora do bairro há mais de quarenta anos, que ali perdeu para a morte o marido, enquanto para a vida, os filhos; e vivia agora só com aqueles seus dois gatões angorás enormes.

     Ele sabia ser pauta daquela reunião de bruxas.

     Sua vida – a bola da vez.

     Passou.

      Quando ele e Silvana se casaram, decidiram mudar para uma cidade menor e durante algum tempo viveram felizes, sem contar que o caldo fosse entornar como entornou.

     Sempre no ramo de brinquedos, com o acerto da antiga firma e mais o pouco que veio com a mulher, montaram uma loja onde trabalhavam juntos a princípio, mas como ela engravidou duas vezes em três anos e foram dois abortos em três anos, crise atrás de crise, sobe e desce dólar, contas chegando, rabichos dele com funcionárias entre um aborto e outro e, tudo se perdeu.

     _Calor, não, senhoras?

     _É, calor.

     “Que dia azulzinho – olhou para cima, bastante alto já, a sacola com garrafas tilintando de encontro ao peito –, nuvens de algodão”.

     Tropeçou.

     As velhas fingiram não perceber a incrível manobra que fez para se manter em pé, mas foi entrar e outra vez se fez ouvir o cacarejar contínuo delas, máquina de costura.

     Nos últimos tempos passou a mexer com muamba, a única maneira de trabalhar com o que sabia: vendas e brinquedos.

     Viajava até Foz do Iguaçu, comprava as coisas no Paraguai, do outro lado da ponte, e voltava.

     Não atravessava com o carro nunca.

     O maior cuidado.

     O carro sempre do lado de cá.

     Perto do Natal e do dia das crianças teve até que contratar laranja pra ajudar a atravessar a bugiganga, mas pegou apenas um Natal e um dia das crianças e, aí fodeu(...).



Escrito por Augusto Firorin às 09h41
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     (...)Até ganhou algum dinheiro passando comprimidos tipo Viagra e Pramil, essas coisas, só que já era o fim.

     E em Foz era uma festa, a roleta, as bandejas com os drinks sempre em movimento, nunca paradas.

     A dança nervosa dos cassinos.

     Nos ouvidos o incessante som de sininhos eletrônicos, e triiiins, e bips. E gente falando em “dôlares, dôlares, dôlares...” – pronuncia dos da fronteira pra dinheiro ianque. E foi assim que um dia abusou não só da bebida, mas também dos V... Era cada paraguaia de se lamber os beiços!

     Teve que deixar o carro. 

     Começou a viajar de ônibus - bate e volta. E como ninguém imagina o que tem de sujeito broxa nesse Brasilzão, deu de trabalhar exclusivamente com os comprimidos que, diminuíam a carga e aumentavam os lucros, no entanto, tudo já estava perdido. Quando voltou numa daquelas madrugadas, não havia ninguém em casa, nem móveis ou eletrodomésticos, roupas, nada, nem as lâmpadas.

     Andava tão entorpecido.