   
Nota pertinente ao documentário “Muito Além do Cidadão Kane”.
por Augusto J. Fiorin
Do mesmo modo que instituições como a escola, a família, o exército ou igreja, cumprem a função de aparelhos ideológicos, também os meios de comunicação de massa – em especial a televisão –, ao veicularem mensagens de maneira ideológica, nada mais são do que um destes aparelhos, mas com a voz amplificada, voz de mil megatons que, como o “dedo de Deus” estilhaça a realidade e torna a moldá-la a partir dos escombros.
Verdade esta que o documentário “Muito Além do Cidadão Kane” – de Simon Hartog sobre a Rede Globo para a T.V. britânica –, desnuda de modo aterrador ao trazer à tona o modo como uma emissora que detém – ou detinha na época da realização do filme – juntamente com suas afiliadas, noventa e dois por cento na audiência nacional, pode levar tal manipulação às últimas conseqüências.
Como a maioria das concessões televisivas, filha de uma das páginas mais negras da biografia brasileira: a ditadura militar, o império global se fundou sobre um país, quando não omitido, ou mesmo inventado por suas lentes, editado em seus bastidores, os mesmos que se confundem com os bastidores do poder instituído, sendo ele legítimo ou não; locais estes, onde palavras como isenção jornalística, isenção política ou cultural, outra coisa não são, senão ficção romanceada; locais onde se dá a luz a um “salvador da pátria” com a mesma naturalidade que se fabrica uma boa morte para um vilão de novela. Sem escrúpulos! Do nada!
E tudo se transforma em espetáculo.
The show must go on…
Até quando?
Escrito por Augusto Firorin às 19h02
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Mais Nenhum Prosac
(por Augusto Fiorin)
I
Por ti não tomarei mais nenhum veneno
E sim farei de minha vida campo minado pros teus pés
Por ti não tomarei nem sequer mais um Prosac
Prefiro ter o corpo esquartejado por um trem
Quero ver tuas pestanas queimando na chama fria da fogueira das vaidades
Quero ver a água que bebe virar sal na tua boca
Quero te ver só, louca, sem felicidade...
Mas o que queria mesmo era não te querer mais
Escrito por Augusto Firorin às 11h40
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II
Por ti não tomarei mais nenhum gole sequer de cachaça
Pois teu amor é frio, é como aço, como um abridor de latas
Por ti não tomarei tento, não tomarei juízo, não tomarei vergonha
Nunca mais provarei de tua peçonha, pois de ti não quero mais nada
Quero sim ver tuas unhas de esmalte torrando na fogueira das vaidades
Quero ver o pão que come sangrar na tua boca
Quero te ver só, louca, sem felicidade...
Mas o que queria mesmo era não te querer mais
    
     
http://www.edadantigua.com/edadmedia/torturas.htm
http://canales.eldiariomontanes.es/patrimonio/museos/mus3.htm
http://www.dhnet.org.br/denunciar/tortura/textos/index.html
Escrito por Augusto Firorin às 15h16
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Escrito por Augusto Firorin às 17h10
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CHAPÉU PANAMÁ.
por augusto fiorin
Você me pergunta se dentro do peito há mesmo um tesouro escondido, do qual falava os antigos, pra quem souber procurar. Me olha com cara de quem se pergunta se eu sou o cara que vive em teus sonhos, num cavalo branco, cabeça nas nuvens, chapéu panamá.
Você me pergunta se do outro lado da ilha o amor e a ira estão mesmo escondidos, como diziam os antigos, sob as areias do tempo, só esperando o momento para aflorar.
Me olha com cara de quem se pergunta se eu sou o cara que vive em teus sonhos,
de roupa branca,
num campo de lírios,
de chapéu panamá.
Mas o homem dos sonhos só tem a dizer:
“Largue as muletas menina e, abrace logo as asas que a vida lhe dá”.
Não me lembrava de ter falado alguma coisa antes com você.
Não me lembrava de ter lhe visto antes por aqui.
Muito menos de ter lhe convidado para vir,
ou lhe passado sermão,
tipo:
“Quem semeia vento colhe sabe o quê?”.
Escrito por Augusto Firorin às 20h13
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Íamos à milhão...
Ruas sobre ruas...
Asfalto engolido....
Francis havia ganho o Porshe ao completar dezoito anos.
Deixávamos a casa dos velhos, Q.G. da família, imponente mansão Araújo Góes e Andrade. Muita grana corria em veios ocultos sob a pele daquele lugar, à sombra da fada madrinha chamada dinheiro, qualquer desejo talvez pudesse ser realizado.
Nos sentíamos mero acidente entre o ir e vir frenético dos nossos pais, em reuniões e viagens que começaram um dia, lá no passado, e nunca mais terminaram ou terminariam.
Eu não tinha irmãos, algum problema com as trompas da minha mãe.
Adele – seios como dois travesseirinhos de paina muito bem costurados.
Vivíamos vidas paralelas, jurávamos aos ventos.
Entre beijos ardentes rolávamos pelo chão de folhas secas, cocô de pássaro e formigas muito sérias de passagem com seus fardos.
Nos delataram.
Francis, mais velho, sádico desde moleque, gostava mais que tudo de judiar, sem dó nem piedade.
Ele terminaria seus estudos no exterior.
Adele não; mandada para um desses colégios linha dura; administrado por freiras.
Eu?
Não sei pra onde.
Nós o obrigamos à fuga.
E os semáforos mudavam de cor a toda hora: verde e vermelho.
A cidade evoluía para um ponto longe no céu de além da compreensão.
Porshe podia tudo, e, eu e meus primos nele.
Escrito por Augusto Firorin às 03h15
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* * *
Antes, como o herói de algum filme adolescente que talvez tivesse assistido, Francis sacou do bolso da jaqueta um canivete e passou sem careta a lâmina pela palma da mão.
_Amigos pra sempre? – falou.
O sangue não era catchup.
Adele pegou a lâmina e só hesitou até encontrar meus olhos.
Cortou-se e também eu.
Juntamos as mãos: “amigos pra sempre”.
* * *
Escrito por Augusto Firorin às 03h13
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A motocicleta surgiu, objeto não identificado.
E houve um clarão, um apagão, não saberia dizer ao certo, como se tivéssemos fechado os olhos e quando abrimos não havia mais pára-brisa nos separando da fome negra do asfalto, dos sons e impossíveis silêncios.
Saltamos.
O que sobrou da moto não passava de ferragens imprestáveis.
O motociclista caído, trapos ensangüentados.
No assoalho o telefone com as teclas acesas depois da pancada.
Com uma simples ligação tudo se resolveria, nem polícia ou jornais, Francis sempre entendeu estas facilidades, eu, jamais entenderia, chucro, irredutível que era.
_A gente tem que voltar – Adele falou.
_Tem? – me surpreendi.
_Dipe... – tentou explicar, mas..., cutucando o morto com o pé, Francis já pedia ajuda; e... Como o garoto santo e iluminado que era, eu corri.
Peito aberto...
Olhos em chamas....
Os outros esperaram e foram levados, e viveram vidas separadas, cresceram e foram moldados como árvores anãs japonesas, ao sabor de ventos imaginários. Mas meus sonhos eram tão loucos quanto aquelas ruas eram longas e emaranhadas.
Melhor ser infeliz em Roma, ou em Paris, ver o anoitecer sobre o Sena, beber vinho na margem, encher os olhos com a luz da lua refletida em suas águas calmas, meter a mão no bolso e me sentir seguro por encontrar alguma grana, mas eu não sossegaria antes de tocar o extremo.
(trecho)
Escrito por Augusto Firorin às 03h12
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1. Língua, sociedade e significação.
Jamais homem completo algum esteve diante da não-língua para então criá-la. Até a própria consciência se torna real apenas a partir de sua estruturação em signos, que, num aparente paradoxo, emergem do processo de interação entre uma consciência individual e outra. A linguagem, o homem (sociedade) e, a consciência, portanto, não são senão engrenagens de um mesmo sistema. Qualquer oscilação, por mínima que seja, em quaisquer um de seus elementos – estes, ao mesmo tempo motor e produto da significação –, reflete-se em outro, e, este em outro ainda, numa reação em cadeia cujo moto-contínuo impulsiona a grande roda da história. A respeito do que, Saussure (2001 : 130) escreve:
“Abstração feita de sua expressão por meio das palavras, nosso pensamento não passa de uma massa amorfa e indistinta. Filósofos e lingüistas sempre concordaram em reconhecer que, sem o recurso dos signos, seríamos incapazes de distinguir duas idéias de modo claro e constante. Tomado em si, o pensamento é como uma nebulosa onde nada está necessariamente delimitado. Não existem idéias preestabelecidas, e nada é distinto antes do aparecimento da língua.”
Raciocínio este, já nas primeiras páginas do seu Marxismo e Filosofia da Linguagem, reforçado da seguinte maneira por Bakhtin (2004 : 35),:
“Os signos só podem aparecer em um terreno individual. Ainda assim, trata-se de um terreno que não pode ser chamado de ‘natural’ no sentido usual da palavra. Não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social). Só assim um sistema de signos pode constituir-se. A consciência individual não só não pode explicar nada, mas, ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social.”
Escrito por Augusto Firorin às 02h48
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Em outras palavras: privado de seu conteúdo semiótico e ideológico, resta ao homem apenas o ato fisiológico desprovido de sentido. Tem-se então, que a consciência não provém diretamente da natureza, mas sim, adquire conteúdo e existência através dos signos criados no curso das relações pessoais ocorridas no interior de grupos humanos organizados. Sendo que ao mesmo tempo em que refletem sua lógica e leis, os signos servem-lhe ainda de combustível. E, mesmo a compreensão, a não ser a proporcionada pelas experiências sensoriais primeiras, não é senão a resposta dada a um signo por meio de outros signos de origem idêntica, numa trilha de inferências que em nenhum momento se rompe. Neste contexto, a despeito da originalidade do objeto lido, a criação de sentido é experimentada sempre como uma relação de tensão que se traduz numa outra configuração de elementos significantes, uma reiteração modulada de um sentido anterior. Remete a alguma experiência cuja origem se perde em alguma região obscura do passado, a correntes de socialização remotas, por meio quais se é inserido no universo das tradições que precede o “ser”. De modo que a semiose transcende qualquer sentido inaugural ou final definitivo das coisas, ou algo plenamente constituído e transmitido como mensagem isolada, imune a quaisquer variações, perdas ou acréscimos. Para que tal mensagem possa fazer o percurso entre dois interlocutores, independente de quais sejam seus suportes materiais, todo um horizonte de elementos deverá ser partilhado entre estes interlocutores.
Escrito por Augusto Firorin às 02h48
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Segundo Benveniste (1989 : 97 - 97), é preciso constatar que entre os elementos que constituem a língua e os que constituem a sociedade, não existe necessariamente uma exata correspondência. Antes de qualquer comparação, distinções em cada uma delas devem ser feitas, separando-as nível histórico e nível fundamental. Sendo que entre uma língua histórica e uma sociedade histórica, não se pode estabelecer correlações. Ao passo que o mesmo não ocorre em se tratando do nível fundamental, no qual língua e sociedade apresentam caracteres comuns: ambas são realidades inconscientes para os homens, sempre herdadas e não se poder precisar para nenhuma delas um início de exercício nítido, fixo em algum ponto da história. Ambas também não se submetem aos caprichos humanos. Efetivamente as instituições são mudadas, e até mesmo a forma particular inteira de um grupo social, mas não o princípio de sociedade, que é afinal o que norteia a condição de vida coletiva. Devido a crescente diversificação das atividades sociais, necessidades e ações, na língua são constantemente exigidas novas designações, e, portanto, é neste nível que as mudanças ocorrem, no nível desinencial, nunca em seu sistema fundamental.
Apesar de nascida e desenvolvida no seio da sociedade e fundamentada através do mesmo processo, pelo esforço de produzir os bens de subsistência, de transformar a natureza e multiplicar utensílios, num patamar superior ao das classes, dos grupos e das atividades particularizadas, a língua reina ainda como um poder coesivo, capaz de fazer de um agregado de indivíduos uma comunidade, além de criar a própria possibilidade de produção e subsistência coletiva. Mas além dela, instrumento diferencial de retenção e propagação de representações que é, os artefatos e técnicas por meio dos quais se fundam as sociedades humanas, também cristalizam em si infindáveis informações. De modo que ao conservar, reproduzir ou modificar tais objetos, conserva-se, reproduz-se ou se modifica também, os agenciamentos sociais e as representações ligadas as suas formas e usos; o que, além das próprias alterações lingüísticas – que não são poucas –, desde a invenção da escrita vêm ocorrendo em relação aos suportes do escrito. Conceito este, parcialmente posto na introdução deste estudo e melhor abordado no capítulo que segue.
(trecho de um novo ensaio sobre a significação
por Augusto Fiorin)
Escrito por Augusto Firorin às 02h46
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Levantou-se, olhou para céu e viu uma estrela cadente caindo. Perguntou-se se não era um anjo de alma angustiada que ateou fogo às vestes antes de se atirar ao abismo.
_Porra, eu não queria morrer, só queria sair de lá de dentro.
_...
_Apertado demais pra mim.
(POR AUGUSTO FIORIN)
Escrito por Augusto Firorin às 22h43
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Assédio moral O lado sombrio do trabalho José Edward para VEJA
Confira os itens do quadro abaixo. Se na empresa onde você trabalha seu chefe age continuadamente de acordo com um ou mais dos comportamentos listados, é provável que você integre um enorme grupo de empregados vitimados por um dos piores males das relações de trabalho, o assédio moral. Essa lista foi preparada com base em consultas a 42.000 trabalhadores na primeira grande pesquisa nacional sobre o tema. O estudo – coordenado pela médica do trabalho Margarida Barreto, a maior especialista brasileira nessa matéria – foi realizado nos últimos cinco anos, envolvendo funcionários de empresas públicas e privadas, organizações não-governamentais, sindicatos e entidades filantrópicas. Do total de entrevistados, mais de 10.000 afirmaram ter sido vítimas de humilhação ou constrangimento, repetidamente, no ambiente de trabalho, na maior parte dos casos por ação dos chefes.
Uma das conclusões dessa pesquisa é que o assédio moral – muitas vezes chamado de tortura psicológica – se transformou em um problema de saúde pública. "A violência moral nas empresas tem contornos sutis", diz a pesquisadora. "Coação, humilhação e constrangimento são situações comuns que muitas vezes nem são percebidas pelas vítimas como um ato de violência." No ritmo de alta competição cada vez mais estimulado em escritórios e fábricas, a pressão exercida pela chefia para cobrar resultados acaba freqüentemente excedendo os limites do razoável. Envolvido nessa rotina de aumento de produtividade, o trabalhador nem sempre percebe o problema – ou, para piorar, passa a ser cúmplice do próprio martírio, aumentando sua jornada, tornando-se um adversário dos colegas para demonstrar suas capacidades e reduzindo prazos e equipes, para não ser apontado como peça discordante do sistema. Na conta final, tem-se, de um lado, gente frustrada por não alcançar as metas cada vez mais ambiciosas. E, de outro, funcionários que transformam o trabalho em razão única de sua existência – até o dia em que não mais darão conta do recado e serão substituídos, descobrindo que investiram tudo num falso projeto de vida.
Os relatos destacados nesta reportagem apresentam alguns casos extremos, que chegaram à Justiça e servem de exemplo dos limites que esse tipo de abuso pode ultrapassar. Nesses casos, e em milhões de outros que trabalhadores de todos os níveis enfrentam e diante dos quais silenciam, dia após dia, o que se vê é o potencial destrutivo dessa prática. Margarida Barreto, que produziu uma tese de doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com as informações que coletou, conclui que o assédio moral provoca danos à identidade e à dignidade do trabalhador e, por conseqüência, aumenta a ocorrência de distúrbios mentais e psíquicos. Num detalhamento do estudo, vítimas de assédio moral no trabalho relataram efeitos físicos e psicológicos dessas situações: stress, hipertensão arterial, perda de memória e ganho de peso, entre outros problemas. Pelo menos 60% das vítimas de casos mais graves dizem ter entrado em depressão em decorrência do assédio moral.
Em 12% dos casos, o assédio moral tem início com abordagens de caráter sexual. As mulheres são mais assediadas do que os homens e há diferenças na forma de reação. Por questões culturais, elas desabafam mais facilmente com amigos ou colegas, enquanto os homens, constrangidos, guardam consigo a agressão sofrida. Eles geralmente mantêm silêncio, envergonham-se e sentem-se fracassados. Não poucas vezes, usam o álcool ou outras drogas como válvula de escape. Estudos da Organização Mundial de Saúde revelam que aumentam em todos os países os casos de stress e o índice de mortes por problemas cardiovasculares decorrentes da degradação das condições de trabalho. Uma análise realizada há cinco anos pelo Fundo Europeu para Melhoria das Condições de Trabalho e de Vida revelou que 8% dos trabalhadores da União Européia – 12 milhões de pessoas – já tinham passado por humilhações e constrangimentos no ambiente profissional. Esse mesmo estudo revelou que, na Suécia, 15% dos casos de suicídio são causados por fatores ligados ao mundo do trabalho (…).
http://veja.abril.uol.com.br/130705/p_104.html
Escrito por Augusto Firorin às 22h41
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Trecho da novela “O Italianinho”, publicada há algum tempo pela PD Literatura.
(por Augusto Fiorin, para Maetê)
Ele ainda se lembrava... Conheceu Alex moleque. Primeiro era Alexandre, Alex veio depois, como vieram as festas e as garotas. Conheceram-se por aí, pelas ruas, arrastados pelo fluxo, pelo som da cidade zumbindo baixinho nos ouvidos. Virgens quanto ao rio da vida, quanto à sua lama. Italianinho sempre metido com trabalhos que para ele eram insignificantes e, de noite trancado no quarto, lendo até à boca da madrugada, a cabeça cheia de sonhos, países de vento. Já o papo de Alex não, o papo dele sempre foi outro, o lance dele sempre foram festas, e festas, intermináveis. Isto na adolescência ainda, e foi indo até que um dia perderam contato.
A lógica do mundo continuou a mesma: moer.
O curso dos acontecimentos não se desviou um milímetro de seus propósitos.
Passaram-se alguns anos, cinco ou seis, tempo da barba engrossar, e, então reapareceu, louco, de pedra. Por onde teria andado? Não muito mais velho que Bruno, Bruno di Cesare, Italianinho, como o chamavam. Chegou num puta carrão importado, carteira bufando, pagando rodadas nos barzinhos pros amigos da antiga, roupas legais, e a garota: Eva, que muito bem poderia se chamar silêncio, ou solidão. Ela que na maioria das vezes se mostrava amedrontada, pouco natural; além dos hematomas (...).
Escrito por Augusto Firorin às 22h46
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(...)Havia também os tais comprimidos que Alex vendia a peso de ouro nas danceterias da cidade, que consumia sem controle. Parecia demente. Tomava o treco e logo estava lá, um cavalo doido, olhos arregalados, narinas dilatadas; inquieto.
A garota-silêncio de modo algum era de se jogar fora, uma tremenda gata.
Alugaram casa na antiga vizinhança e foram se deixando ficar. O Italianinho aparecia, bebiam cerveja e às vezes via uma estranha chama através das carnes opacas do outro, filamento de lâmpada incandescente dentro do vidro. Sabia que, apesar da antiga amizade, já não restava mais nada em comum entre eles, nenhum vínculo. Lá no passado fumaram juntos o primeiro baseado. Alex gostava de se gabar quando na presença da mulher: “Fui eu quem apresentou pro moleque”, dizia, e puxava, e prendia, apenas isso, mais nada.
Italianinho empurrava a vida com a barriga, esperando que seus sonhos se cristalizassem, amadurecessem a ponto de não restar mais nada senão colhê-los. Vivia com a avó. Mudara-se para sua casa desde que se cansara de ser arrastado de um lado para o outro pelos pais separados, que viviam pela carreira e pulavam de galho mais que macacos. Que ainda brigavam muito, mesmo estando separados. Um dia resolveu dar um basta na coisa, era bem menino, mas, porra!
A velhota era ativa até demais para seus oitenta e três anos. Virava-se sozinha. Nunca precisava do auxílio de ninguém pra nada, ao invés, ajudava, presenteava com a pasta caseira que fazia, cuidava das crianças dos parentes, costurava roupa rasgada, mandava doce de fruta. Apenas de vez em quando parecia mergulhada num tonel de memórias, onde um líquido grosso como gelatina amortecia seu contato com o mundo, aparava as arestas. Piorou muito quando perdeu para a morte o esposo; que um dia simplesmente não acordou, a morte foi mais rápida e, zás! Adeus, velho Guerino.
As famílias vieram juntas da Itália no bojo de um cargueiro que singrou o Atlântico. Lembrava-se de quando a guerra desabou sobre a Europa, lembrava-se de quando eram meninos na vila deles.
Bruno chegou assim que o velho partiu, jogou a mala num canto e foi observando a avó ficar pior ao longo dos anos. Havia dias em que nem com caniço e anzol, nem com guindaste, talvez, fosse possível içá-la de lá, do tonel. Para ele qualquer coisa era melhor que seguir os pais; e assim o tempo passou, o tic-tac do tempo (...).
Escrito por Augusto Firorin às 22h44
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